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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte



Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.

Há apenas um buraco agora aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

Manuel António Pina
26/11/2006

Mário por Mário - You Are Welcome to Elsinore

Pastelaria

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Biografia de Mário Cesariny


Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu a 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. Estudou na Academia de Amadores de Música e, na década de 40, entrou na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Em 1947, escreveu os poemas “Louvor” e “Simplificação de Álvaro de Campos” e começou as suas primeiras aventuras no mundo das Artes Plásticas. Neste ano frequentou a Academia La Grande Chaumière. Mário tornou-se um dos mais importantes defensores do movimento surrealista francês e juntou-se ao Grupo Surrealista de Lisboa. Participou, em 1949/50, nas I e II Exposições dos Surrealistas. Publicou várias obras poéticas como por exemplo “Corpo Visível” (1950),  “Um Auto para Jerusalém” (1964),  “As Mãos na Água a Cabeça no Mar” (1972) e a obra de ficção Titânia (1994). Cesariny faleceu dia 26 de Novembro de 2006, em Lisboa.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny